Reflexos

1
Os cristais que desenham o meu reflexo
Têm a arte matemática de um complexo:
Perdidos na lógica, na procura do sentido.
Cacos de um prazer esquecido.

Por querer tanto saber quem eu sou,
Tornei-me a maré que nunca vazou,
Constantemente a beijar a costa,
Em busca de uma alma composta.

2
Não gosto do que sou, um labirinto sem plano,
Um sorriso num desgosto mundano,
Um sedado num dormir não descansado,
Um ator da peça do louco que tenta enganar o fado.
Abram as cortinas!
Soltem as serpentinas!
Primeiro ato de fingir,
A tristeza de sorrir.

No fim de contas, sou só mais um falhado,
Um mísero soldado que nunca esteve armado,
Caído na guerra pelas armas que a sua própria mente lhe apontou.
Querido país, não odeiem as bombas que o meu inimigo me guardou.
Abram as cortinas!
Soltem as serpentinas!
Segundo ato de perder,
Na guerra de se conhecer.

3
Os cristais que desenham o meu irmão
Quebram-se a cada minha questão.
Perguntam-me quem eu sou,
Tenho mil respostas que dou.

Procurei em cada canto escondido,
Encontrei em cada estranho conhecido.
Perguntam-me quem eu sou,
Sou todos aqueles que minha alma cruzou.