É nos dias que passam a correr,
Que quase não são dias,
Que a noite é mais minha.
Esses dias empilhados em manuais de utilização,
Daqueles que ninguém lê de imediato por amor-próprio,
Esses dias quase não são dias,
Não fosse a hora em que eles terminam.
Nesses dias, eu pergunto-lhes
Como se sentem, sabendo que um dia tudo vai acabar.
A adrenalina que fumam,
A música para a qual o fazem,
O sonho no qual pensam, entretanto,
O infinito que sentem ser.
Pergunto por um amigo que finjo ter,
Um embrião da minha mente,
Uma esperança da minha solidão,
Que me segura a caneta enquanto escrevo
E desabafa-me os argumentos que desenho.
E das respostas colheito a noite
E todos os descarrilamentos de ideias que nela ocorrem.
Semeio-os e vejo como cresce em pura poesia
(Daquela que esta cidade me ensinou).
De tudo isso, nada resta.
Pois tudo acaba.
Mesmo o meu amigo que finjo ter.
E aí, talvez até a solidão se vá também.Por enquanto, aguardo.