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À medida que cumpro com as minhas responsabilidades noturnas,
E me afogo um pouco mais nas preocupações das minhas ficções,
Encontro novas alegações à premissa que dita civicamente 
Que não há caminho que não termine na inevitável destruição.

Mas, ainda assim, eu retiro toda a sátira do meu corpo,
Num longo e abonado banho religioso antes da hora do sono.
Para que não seja esta ironia quem me destrói no fim,
Mas sim todas as causas da sua fértil subsistência. 

Na verdade, é o vento quem me sussurra essa verdade ao ouvido,
E nada há mais irónico que a natureza de tudo e todas as coisas.
Talvez, no fim, seja essa a sátira que nos demolirá,
Talvez seja a Natureza dessa estrada inelutável que leva à destruição.
1

Eu não sou aquilo que a minha ansiedade diz de mim.
Não sou o objeto disforme que o meu medo descreve quando fala.
Não sou essas demonstrações de inutilidade que me fotografam no espelho.
E não sou esses impropérios mudos que relatam os meus pesadelos.

2

Sou uma alcateia de latidos
Mas todos eles cheios de razão.
E quando gritam, a noite não é tão negra,
Tem as cores psíquicas de todo o orgulho que me obrigo a ter.

Cores que se derretem no céu noturno,
Em tintas de óleo num quadro escuro,
Que se formam e desformam 
Nas quase muitas aventuras que soube viver.

Sou o condutor elétrico
De toda esta arte que pinto
Em palavras temerárias e cheias de antítese, 
Que cantam pelas ruas amarelas e azuis da madrugada.

Empoleiradas nos candeeiros,
Com danças de quem não sabe dançar,
São as vozes da minha tão tímida forma de arte,
Num assustado espetáculo de rua, para quem aprendeu a ver.

Sou aldeias de energia e vontade,
Colapsadas pela frenética polaridade do ser
Que quer estar presente no futuro e no futuro depois desse,
Nem que seja no fraco soprar de uma viola, na última canção da Terra.

Nos últimos vendavais de melodia, 
Escondidos nos buracos deixados pelo apocalipse,
A cantarolar os derradeiros acordes
Da história de uma atribulada Humanidade.

3

Eu não sou aquilo que digo de mim.
Não sou aquilo que faço de mim.
E tampouco sou aquilo que tenho em mim.
Eu sou muito mais do que saberei um dia escrever.

1
É difícil dizer de onde veio,
Pois não souberam celebrar o seu nascimento.
Igualmente, ignoraram o seu arrastão de cueiro,
E repudiaram-na no seu primeiro escoamento. 

Contudo, por medo ou razão, 
Bendisseram a sua boa forma de silhueta, 
Agradeceram a utilidade da sua mão,
E perverteram-se pela sua inocência. 

Ainda crendo-a inferior,
Casaram-na com tudo o que não sabiam fazer,
Amainaram a tempestade do seu interior,
E espancaram a sua capacidade de conhecer.

Foi a primeira delas todas,
Mas com a qual o ciclo fatalmente viciou,
Afogaram a sua mente brilhante em sombras,
E a Mulher por séculos não falou. 

2
Acudia por ajuda nos vestidos apertados,
Nos alfabetos não aprendidos e na pele maltratada.
Viu o seu poder de marchar de canhões apontados
Encurralado no músculo de uma mão levantada. 

Mas nem assim deixou de ter pensamentos enfeitiçados,
E nos gritos que gritou, ergueu-se uma armada,
Dentro de si tinha milhões de brilhantismos desprezados.
Fazia braço de ferro com uma mente empoderada.

Tal como a sua mãe, que tinha na cabeça uma arma,
No olhar a verdade e uma cura na sua alma.
Mas mesmo sendo irmã de quem tantas vezes a matou,
Não reconhecia esse ser que a sua luz levou. 

Pois foi a Mulher Natureza que lhes deu ventre e comer,
Abusada pelo Homem que a engolia sem dever.
E perguntava-se agora, como lhe pode ele bater
Se também de uma mulher foi ele nascer?

Estava perdido e pedia que nunca me deixassem
Por dentro de mim rolavam sete e outros mares,
Que oscilavam indestintamente sem me dar conta
E pediam-me que me trasformasse a cada dia.

Fui um camaleão por anos em longas estradas.
Procurava uma cura a uma loucura que sentia ter. 

Loucura de por um pé numa rua e outro na partida, 
Loucura de olhar para um rosto e sorrir em despedida.
Loucura de abrir um futuro e viver no passado,
Loucura de ser séculos de história num corpo lavado.

Loucura de incendiar tábuas de valores com filosofias inventadas,
E apagar as chamas com cuspo de poesias cantadas.
Loucura de ser adolescente no mundo adulto,
Pagar renda de uma casa para acolher um culto. 

Loucura de viver mais rápido que a minha idade permite,
Loucura de viver de cantar na rua e ser pedinte.
Loucura de ser visionário num mundo feito de papel,
Loucura de comprar o mundo com um lápis e um pincel. 

Loucura de beijar estranhos acorrentados,
Fazer amigos e amores por ideais amados.
Loucura de falar na varanda lá para baixo,
Ouvirem-me cantar e aplaudirem o bom gosto.

Canto agora que loucura esta não doença.
É crença. 
É levar na rua o coração na mão. 
Loucura esta que é solidão.