1
Nas universidades, compunham os cantos da revolução,
Pegavam fogo aos cânones impressos em livros por padrão.
Bocas cozidas pelo ódio superior de quem lhes tirou o vigor,
Lei era feita para se opor, pois a realidade criou o
sonhador.
E as ruas encheram-se pela vida de quem bem as soube encher,
Não de suor e sangue, mas de poesia pura que faz a cidade
tremer.
Foi a noite mais linda do século, gravuras na calçada a
gosto élfico
Foi utópico, sereno, sincero e estético, foi desejo liberto
de um povo épico.
2
Nas casas onde se vivia bem, aquele bem de quem não sabe
viver,
Mamã tira a roupa do estendal, para não apanhar esta forma
de conhecer,
Pelo fumo das bocas de dragões, que não falam para os
botões,
Gritam bazófias e sermões. Aos pensadores chamam ladrões.
E de avental e cara lavada, a senhora reza ao seu Senhor,
‘’Tira estes homens da estrada, negoceia piedade, pelo amor.’’
Tranca a porta e fecha as janelas, desliga o fogão, guarda as
panelas,
‘’Eles incendeiam casas como acendem velas, e libertam esse
fumo de pensar como cães sem trelas.’’
3
Os mais felizes foram aqueles que nunca o souberam ser,
Escreveram em carros, paredes até a cidade enlouquecer.
Quem se conformava, nunca mais o soube fazer,
Um cego é sempre cego se nunca quiser ver.
E a cidade mudou, a utopia reapareceu,
Os revoltados construíram um lar que finalmente chamaram
seu.
Até a próxima geração chegar e nas universidades compor
Cantos de revolução, para pôr as senhoras a rezar ao senhor.