1
Chamem-me tudo,
Mas hoje só quero ser poeta.
2
E quando as secretárias estiverem tatuadas
Com a silhueta dos meus braços e cabeçadas,
Não serei o trabalhador em que confiaram todo o mês.
E quando os ecrãs de computadores estiverem tingidos
Com as cores do cansaço dos meus olhos incompreendidos,
Não serei o trabalhador em que confiaram todo o mês.
E quando o meu assento estiver esculturado
Da forma de todo o aborrecimento deste corpo desgastado,
Não serei o trabalhador em que confiaram todo o mês.
3
Procurem-me nas estantes de livros técnicos e vulgares,
Nos bancos de dinheiro que são vossos altares,
Debaixo das mesas, de mãos nos ouvidos à espera do
terramoto,
Atrás da porta, de corpo hirto, com medo do marmoto,
A socorrer a ânsia de ganhar dinheiro com um trabalho
aborrecido,
A assinar a garantia dum futuro, com um dia-a-dia
desiludido,
A subir montanhas de escadas para um escritório donde me
quero atirar,
A agredir letras de teclado para papeladas que vou querer
rasgar.
Nos mártires de sonhos sacrificados por suposições profissionais,
Nos aterros de aborrecimento, onde lágrimas formam canais,
No luto das
assinaturas de contratos escritos a carvão
E até nas árvores cortadas que originarão o próximo milhão.
Procurem-me onde quiserem,
Mas, provavelmente, estarei a fazer poesia.