A Pele do Mundo

O mundo viu a mudança e fotografou-a na sua pela nua.
O Homem viu essa arte e amaldiçoou a fraca memória sua.
Observou-a todos os dias para que o seu olhar não se arrependesse
E procurou pintá-la para que nunca mais se esquecesse.

As preciosidades do mundo reproduziram-se em gémeas de papel
Pela paciência do artista humano e pela imitação do pincel.
Como se pode esquecer algo tão perfeito?
Como posso assumir já o ter feito?

Então, para que a memória durasse mais um dia,
O Homem fez da luz sua e criou a fotografia.
Os segundos passaram a durar eternidades desconhecidas
E a história do mundo conheceu metamorfoses desmedidas.

No olhar do Homem construíram-se castelos e muralhas,
Queimaram-se florestas e molharam-se acendalhas,
E, no transtornado medo da cegueira irreversível,
Viu-se mais do que se pensou ser possível.

O mundo viu a mudança e fotografou-a na sua pela nua.
O Homem viu essa arte e com maquinaria fê-la sua.
Espelhou a beleza para que o seu fim não conhecesse,
Vendeu-a por elogios para que o mundo enriquecesse.