A Arte do Vazio

Nunca quis ver a ignorância de perto,
Conhecer os poros da sua pele e saber que são vulcões de um enorme vazio,
Mergulhar nas cavidades do seu olhar e nunca, nunca deixar de cair,
Ou inundar-me da saliva que cospe e conseguir respirar, por não ter a química correta.

Nunca quis dar a mão ao não querer saber,
Baloiçar-nos em recreios de cimento, qual funeral da diversão,
Deitarmo-nos num sofá de pleno vazio e contentarmo-nos por conforto,
Ou correr o mundo sem cansaço, por não sairmos do tal sofá.

Sempre quis ver a tipografia dos meus sonhos,
Cantar cada um dos seus detalhes, em poesia ou outro idioma parecido,
Calcar as letras com um olhar metafísico e conhecer o seu significado,
Ou casar o seu traço com a beleza orgânica de anotar cada demência.

Sempre quis dar altifalantes à inconsciência,
Ouvi-la em stereo sobre o mundo mono e monótono,
Dançar por entre as frequências daquilo que a realidade não me soube dar,
Ou compor a Última Obra de Arte com cada sílaba que nunca foi dita.

Mas, mesmo que nasçamos para querer,
Neste mundo de tentações, crescemos para que o cansaço nos eduque,
E nos embale, enquanto amaina as tempestades do nosso desejo,
Para que nos deite no sofá, na ignorância e no não querer saber.

Caímos no sono, sem inconsciente, enquanto quedamos no vazio,
E os altifalantes são dados aos vulcões sem erupção e às salivas sem química.
Não é triste, nem tampouco mórbido.
É só vazio.