Gostaria de comer o que crio.
Mas a arte guisada com que me sacio
Não me tira as enfermidades de fome
Que se me nascem, conforme.
Conforme deixo o pão no prato branco,
Para que se me acumulem as notas no banco.
Quiçá, um dia verei como se lhes dá a metamorfose
Para que sejam doces maravilhas de psicose.
Gostaria de pegar nas negras ruas de Berlim,
E consumar frases de poesia em fértil cetim.
As vidas que foram e ainda são por aí,
Estateladas em papel que escrevo para mim,
Recorrer uma amostra do seu expressionismo lilás,
Para o cultivar eternamente num verso fugaz.
Onde tentarei falar do graffiti, das pontes e do rio,
Onde vive sempre um artista que sempre sorriu.
Gostaria de comer o que crio,
Para que os dias fossem como este pequeno desvio
De razão e outras coisas que pouco importam
Numa cidade, onde os artistas nunca se cansam.
Gostaria de comer o que crio,
Para que, num largo trago do rio,
Pudesse digerir esta cidade de uma vez
Nas palavras que esta loucura fez.