Poltrona

Poltrona

1
Lado a lado.
Um conto rimado,
O meu corpo tombado
No teu sofá amarelado.

Coberto por histórias e mil horas
A fio com palavras mornas,
Ouvi cantos, contos e contas,
Suspiros por ti deixados nas sombras.

Cada palavra, cada olhar esbugalhado,
A ouvir uma geração, num passado enfeitiçado.
E sentados nas poltronas, voávamos sem motor
Onde mesmo sem notar, fui chamado sonhador.

2
Sempre com o cabelo da década segunda,
Curto, fino, de vaidade diminuta,
Sob um branco rosto que nunca muda,
Protagonista dum passado que me permuta;

Com a maresia nas pontas dos dedos,
Segurando poemas, pincéis e segredos.
Pousados numa grande tela engenhada
Abstrata e esculpida à gargalhada;

Com o olhar castanho, ao lado do oceano,
Filha da onda favorita dum marinheiro.
Três águas percorridas, à procura de um lar.
Como será a vida agora, do outro lado do mar?