1
A tinta embrionária fez-me escrever,
Nascer no ventre de cada letra,
Tecer cada fala numa linha sem raciocínio,
Verter a mente em palavras carimbadas.
Vim à superfície coberto de cor,
De todos os tons em que diria as palavras,
De todas as suas variações,
De todos os seus traços.
2
Queria que o tempo se esquecesse de me incluir
Na sua lista de convidados de cada noite,
Para fugir mil vezes numa só.
Queria distrair a minha distração por um pouco,
Submergir essa vontade de ser octópode
E poder alcançar todas as artes num segundo.
Queria saber terminar um poema,
Ou começá-lo, para variar,
Nestes dias sem muito para dizer.
Queria desprezar toda a criação,
Laborar para cada jantar
E para nada mais viver.
Queria que ser complicado fosse mais simples,
Que o mistério fosse menos complicado,
E que a simplicidade fosse menos misteriosa.
Queria poder nascer de novo na tinta embrionária.