Era uma vez um despedaçado viajante,
Não tinha destino, não tinha amante.
Pousou as suas malas no bairro mais alto da cidade,
Um solitário sonhador de vinte e três anos de idade.
O seu olhar dizia que tudo já viu
E que, mesmo esperando de tudo mais, sempre sorriu
Pois sabia que beleza é matéria inacabável,
Sempre presente, mas nunca palpável.
Cruzou mil vidas e mil corações iluminou,
Histórias que riam fizeram chorar, sempre que as contou.
Deu um bocado de si a cada qual com quem falou,
‘’Amigos para a vida’’, disse – algo que nunca esperou.
Toda a gente sobre ele falou e toda a gente o admirou.
Com aquele olhar cheio de universos, o viajante vislumbrou
Que a bondade é núcleo de todo o ser,
O problema está em quem não se deixa ver.
Certo dia, pegou no seu enorme sorriso e distribuiu
Por cada razão de rir, menos um amigo que mágoa viu.
Todas as razões foram ouro para quem nunca sorriu,
E o viajante pensou ter aquilo que sempre pediu.
Mas a manhã seguinte chegou com um frio surpreso,
Era o sentimento de um renegado, que foi expulso e preso.
Por tantas razões dar, sobrou-lhe o orgulho de as oferecer,
Sem um sorriso seu, viu-se destinado a perder.
(…)
Foi meu amigo, o viajante. Deles todos, o melhor.
De infinitos corações, o dele será sempre o maior,
Ofereceu-me um pouco dele e juntei-o a mim,
Para me lembrar do despedaçado viajante, que nunca terá fim
Agora, ele vai-se embora e, com ele, uma razão para sorrir:
O inconsolado viajante cuja vida é chegar e partir.
Tê-lo-ei junto de mim para me lembrar que por amor se vive,
Despedaçado viajante, és o irmão que nunca tive.