O Homem Que Perdeu a Voz

1
Caminhava pelas ruas de uma cidade desconhecida,
Quando uma esquina acolheu a minha sonolência amortecida.
Ao fundo, o histerismo fanático pela Estreia Mundial,
Um daqueles novos cantores de agrado colegial.

O amor-obsessão que era gritado pela personagem –
Como se fosse a última oportunidade de vislumbrar tal paisagem –
Transportou-me para os tempos felizes agora passados,
Apenas presentes quando recordados.

2
Fui o abandonado a sonhos e pistolas,
O rapaz das calças de ganga e velhas camisolas,
Que sonhava para sobreviver à eventualidade,
Que cantava mundos para fugir da realidade.

Que, por vezes, se vestia bem para cantar
E que sempre cantava para se vestir bem
Fui pássaros no Verão incessantes a voar,
Asas contra o vento e rumo longe da mãe.

Quando as coisas se começaram a complicar,
E a realidade ribombou os céus com o seu gritar.
Deram números a um sonho que não era matemático
E congelaram a evidência de um futuro estático.

Vendi a alma por aquilo que o Diabo não tem:
Um sonho maior que a possibilidade de sonhar.
Fui o rapaz que, nunca cantava para se vestir bem
E sempre se vestia bem para cantar.

Os meus valores caíram como um Império,
E vi a minha concretização afastada num milénio.
Perdi-me na minha própria procura,
E do que me tornou único, restou a minha loucura.

Abracei as ruas como a minha mansão,
E em estranhos vi o que me faltava no coração.
Perdi o sonho, mas nunca a pistola,
Tornei-me o rapaz que pedia esmola.

3
Caminho pelo mundo, sem renas nem trenós,
Emaranhando esperanças em desvaneios e nós.
E agora durmo onde esteja a sós
Pois sou o homem que perdeu a voz.