Vejo toda a baixa
cantar,
Os loucos e as
prostitutas;
Os travestis e as
confusas;
Os católicos que não
sabem rezar;
Os bons malandros que
não sabem roubar;
A inocente solitária
de costume,
Morta, escanzelada,
sem volume,
Entregue nas mãos de
um desconhecido,
Que a acudiu por seu
pedido –
Também ele não cessa
cantar,
Para o seu novo amor
encantar.
Por toda a calçada,
uma cor,
Um contralto e um
tenor,
Um baixo – um furor.
Parece-me um blues americano,
Daquele que faz
chorar o magano –
Esse também canta,
Chora, mas não
engana.
A vodka entoa vozes
Dos empregados e dos
bosses;
Dos barristas com
tatuagens
Aos motoqueiros em
miragens.
A noite entregue a
cantores,
Perdidos na própria
cidade,
Cantam arte e
falhados amores,
Poesia, sonhos, promiscuidade.
Violinistas na rua,
Baixistas de riqueza nua.
E eu que nunca
cantarei novamente,
Se não for como esta
metrópole,
Quando canta,
megalópole.
Tejo não é água doce,
É sal que esta mágoa
trouxe,
Cantada no sonhado fado
da noite.
Vejo toda a baixa a
cantar:
Os loucos a refilar,
As velhas a soluçar,
As prostitutas a mostrar,
Os católicos a tentar
rezar,
As inocentes a
matar...
Por todas as ruas
cósmicas,
Essas vozes monocórdicas.
Porque lisboeta a
falar
É fadista a cantar,
Na capital que sempre
viu o mar.