Os estranhos pintavam as ruas com as cores das suas roupas.
Vinha para o bairro alto, mas alguma poesia da baixa me prendeu.
Sentei-me no degrau de um prédio de uma velhinha que lavava a louça,
Cantava um fado à janela para os estrangeiros que nunca conheceu
Pensava em mil e uma maneiras de fazer o tempo passar
Sem me aperceber que no fundo só o queria fazer parar
Na calçada.
Nos azulejos.
Na musica do meu telemóvel.
Na ausência de quem amo.
Na espera de não esperar.
(...) Não sei, talvez me tenha cansado de rimar
Ou talvez não seja eu a falar.
Talvez este poema não faça sentido quando estiver sóbrio.
Falo com estranhos, dou-lhes um pouco de mim
Somos todos o mesmo orgânico, nada nos difere.
No fundo, somos todos um pouco do mesmo, e um pouco de algo mais.
Falo com estranhos, peço-lhes que me procurem.
Procurem-me no álcool que deixei cair no chão,
Numa dança que não era nada mais que dor no coração.
Pois quem dança, sempre despeja a bebida.
Procurem-me neste miradouro.
Procurem-me nos bares.
Procurem-me neste casaco de couro.
Procurem-me nestes estares.
Procurem-me nesta noite de solstício.
Procurem-me na sua madrugada.
Procurem-me neste compromisso
Entre a ignorância e a demanda.
Procurem-me no sem-abrigo que canta blues.
Procurem-me no rapaz que faz rap.
Procurem-me no lusco fusco.
Procurem-me nas promoções de um novo bar.
Procurem-me no testemunho desta anarquia.
No destronar desta alma que asfixia.
Procurem-me.
Procurem-me, mas não me encontrem.
Procurem-me. Mas não me encontrarão.
Não, na noite.
Não na nova hora.
Não na guerra.
Não na paz.
Porque onde existe perda, existo eu.