(...)
Olho a minha vida como o mar olha o céu. Vejo o meu futuro
naquela linha do horizonte que os separa. Eternamente próximo, fatalmente
distante. Indefinido pela ondulação que o vento escolhe dar ao mar, tal como as
circunstâncias escolhem dar-me a mim.
Contaram-me que as noites foram feitas para dormir e os dias
para trabalhar. E para refletir, onde fica o tempo? No que me toca a mim,
roubo-o ao sono. Peço-lhe perdão por me esgotar, e agradeço-lhe por me
cultivar. Sei que não deveria pensar tanto. Não é o médico que o diz – ou
talvez o diga, mas eu nunca o ouço – é a minha exaustão. Ouço-a ranger, como
uma arma de metal contra mármore frágil. Arrasta-se pelos meus dias, como eu me
arrasto por eles. Tropeça em mim e nas falhas da minha lógica. Nas falhas da
minha matemática, incompleta e indecifrável. E quando a superfície por onde
desliza acaba, o fim começa e eu começo a findar. É a hora de dormir e de
deixar de sonhar. Os sonhos, deixo-os na mesinha de cabeceira onde estão os
livros com as histórias onde também vivo. E, no mais profundo dos cansaços,
desiludo o meu pensamento e entrego-me a um vazio que, nem bom, nem mau, se
torna companhia.
(...)