A Cidade Falava

À medida que as letras se enumeravam,
As cabeças dos novos mundos surgiam circunspectas,
Nos quadris que se rompiam pelo seu nascer.

A palavra estava criada, desenhada no poder da sua imagem,
Tatuada na língua de quem não gaguejava
E solta pelos poetas que na altura inventavam a arte de não calar.

E, como uma herança, a criação foi deixada aos seus filhos,
E aos filhos deles.
Até a tinta derrubar as cidades da civilização, apenas por desenhar palavras bonitas;

Até os netos dos netos não saberem mais falar sem ser a cantar;
Até as paredes não serem mais tijolo por tanta poesia se desenhar;
Até a sujeira do chão não ser mais imunda por também ela ser palavra;

Até os professores desistirem das academias, por poesia ser tão comum;
Até a educação dos seus bisnetos ser a obra da palavra finita nas palestras,
Mas sim o interminável pensamento hereditário da cidade.

A cidade falava todos os dias com os céus e estes anunciavam ao universo os seus poderes.
O cosmos sabia que era o único lugar para onde a guerra não ia,
Em toda a não-existência galática, nunca se conhecera tão sublime história.

E, então, por serem demasiado oferecidos àquilo que Deus lhes ofereceu,
Foram expulsos da humanidade e afundaram-se em oceanos atlânticos e pacíficos.
E a cidade da poesia foi entregue à descoberta,
Para um dia, os trisnetos deles encontrarem na palavra,
O magnífico poder de falar e não lutar.