Cidades de Almofada

Atiro-me para cidades como se fossem de algodão
E espero delas tanto conforto como solidão.
Faço família nas ruas desertas que tento beijar,
E amigos naqueles que, como eu, não sabem ficar.

Entrego-me aos estranhos como se fossemos de papel,
E como se, na nossa imensidão, fossemos Torres de Babel:
Um único idioma que é a procura de sempre chegar,
Um único castigo, condenados a um sempre separar.

Prometemos dez anos ao nosso conhecimento,
E colamo-nos como se do papel fosse feito cimento.
Beijamos o algodão que pavimenta a cidade,
E namoramos o aqui que é eternidade.

Pois um aqui é um ali muito sonhado,
E eu sempre tive fama de não estar acordado.
Coleciono os aqui’s por nunca saber ficar,
E os ali’s por nunca me saber contentar.