1
Criou-se por não se saber bem o que seria,
Moldou-se por se ter a certeza do que faria,
Esqueceu-me por ser exatamente o que se pretendia.
2
O rapaz da cabeça bonita e castanha,
Embebido numa matéria, dir-se-ia, estranha,
Não agradava ninguém.
Era feito de barro para que fosse diferente,
E para que da sua matéria se fizesse irreverente,
Para agradar alguém.
Daí, davam-lhe palestras, as mãos ignorantes,
E retiravam-lhe os pedaços mais pedantes,
Para agradar o bem.
Ele envolvia-se na diversão dos seus desiguais,
E da sua cabeça faziam-se preciosos carnavais,
Pois só queria agradar alguém.
Por fim, foi tudo o que lhe ditaram para ser,
E no calor do nervoso, deixou o barro derreter,
E não soube ser alguém.
Sobrou o humano esqueleto no interior dos ossos,
E os desiguais não lhe tocaram mais, orgulhosos,
Não agradou mais ninguém.
4
Não sabiam quem era por ser diferente,
Mudaram-no para que fosse coerente,
Esqueceram-no por ser reverente.