1
Eu não sou aquilo que a minha ansiedade diz de mim.
Não sou o objeto disforme que o meu medo descreve quando fala.
Não sou essas demonstrações de inutilidade que me fotografam no espelho.
E não sou esses impropérios mudos que relatam os meus pesadelos.
2
Sou uma alcateia de latidos
Mas todos eles cheios de razão.
E quando gritam, a noite não é tão negra,
Tem as cores psíquicas de todo o orgulho que me obrigo a ter.
Cores que se derretem no céu noturno,
Em tintas de óleo num quadro escuro,
Que se formam e desformam
Nas quase muitas aventuras que soube viver.
Sou o condutor elétrico
De toda esta arte que pinto
Em palavras temerárias e cheias de antítese,
Que cantam pelas ruas amarelas e azuis da madrugada.
Empoleiradas nos candeeiros,
Com danças de quem não sabe dançar,
São as vozes da minha tão tímida forma de arte,
Num assustado espetáculo de rua, para quem aprendeu a ver.
Sou aldeias de energia e vontade,
Colapsadas pela frenética polaridade do ser
Que quer estar presente no futuro e no futuro depois desse,
Nem que seja no fraco soprar de uma viola, na última canção da Terra.
Nos últimos vendavais de melodia,
Escondidos nos buracos deixados pelo apocalipse,
A cantarolar os derradeiros acordes
Da história de uma atribulada Humanidade.
3
Eu não sou aquilo que digo de mim.
Não sou aquilo que faço de mim.
E tampouco sou aquilo que tenho em mim.
Eu sou muito mais do que saberei um dia escrever.